sexta-feira, 13 de março de 2009

A Boca



A boca
murmúrio longínquo
de sal nas ondas
e do branco da espuma,
raio de sol perdido
em chuva ou neve,
caverna onde o sopro
das palavras e das brisas
ecoam
agitando
as águas do lago estagnado
do meu peito.

Boca
de um beijo morno
do sal, da vida e da morte.
O começo e o fim
de um segredo oculto
e do domínio do prazer.

A boca
falando a outra boca
beijando
mordendo
agitando
cerrando-se
Morrendo.

sábado, 14 de fevereiro de 2009




Na Sombra das Aves

Vem, meu amor, sentar-te junto ao rio
florindo as mãos de flores silvestres
embalados pela música vertiginosa do rio,
no fim desta tarde explosiva de carmim.

Esquece todas as angustiosas esquinas,
que nos ferem os pulsos quotidianos e
saboreia na planície o aqui e o agora,
sem ontem, sem amanhã, sem morte...
Deixemo-nos ficar parados, simplesmente
debaixo das árvores doces em flor,
contando uma a uma as sombras das aves
que planam livres no azul por cima de nós,
sem pensarmos em nada, nem sequer
porque te chamo desde sempre, meu amor...

O rio corre com o perfume das flores da tarde
e ouve-me dizer baixinho na erva macia:
- Vem ser feliz aqui, na sombra das aves.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Poema do vento inconstante


Poema de vento inconstante

Não falo deste vento esterilizado de sal,
falo daquele rumoroso, que esculpe no frio
circular, as brancas fórneas calcárias
e traz aquém-mar o cheiro a mito acre
das velhas plantas serranas e selvagens.

Não falo sequer do vento quente de leste,
sopro do deserto árido queimando as veias,
feiticeiro das paixões viscerais do luar.
Falo daquele vento sonoro, claro e intenso,
capaz de traduzir mil palavras enigmáticas
em diálogos húmidos de silêncio fértil...
É o vento metáfora da errância dos trilhos,
onde as rochas duras do olhar ficam nuas.


Falo daquele vento animal livre e bravio
que te revela neste poema de saudade,
onde o vento inconstante escreve sem cessar
versos marcados com cheiro a rosmaninho,
enquanto nos olivais, a melodia dos melros
eleva no ar, o sopro alado deste reino-doce.

domingo, 9 de novembro de 2008


Poema ingénuo para Eugénio


Num fim de tarde laranja-estival
na paz basáltica da escada antiga,
mastigo pão de centeio pingando mel
num vestido-lua de alfazema madura.
Como um mestre, brilha na erva tisnada,
um gato amarelo, ou um poeta, que lambe
raios de sol desenhados pelas cerejeiras.

Então repito o teu jogo dos dias ácidos
para abafar o mofo das palavras vedadas,
abro ao acaso o livro Interdito de Eugénio :
“Eras o fruto/ nos meus dedos a tremer.
Podíamos cantar/ ou voar,/podíamos morrer”...

As mãos em concha recebem águas de íris
no silêncio ondulante da noite nas alcachofras,
as cerejas rubras tremem na aragem jovem,
enquanto os tordos viajantes cantam, voando baixo.
E nós ingénuos só podemos morrer com Eugénio...
Os outros versos serão lume nas sombras da lua,
numa noite de chuva miudinha refrescando o cerejal.

sábado, 18 de outubro de 2008

Viagem







Partir de mim com nada nas mãos,
contornar as ruínas perdidas na urze
do monumento sagrado que um dia foste
e olhá-las sem curiosidade, sem as tocar,
pelo raio fulminante de um instante-luz.

Passar entre os sulcos e rugas de pó,
avançar guiada pelo som das águas,
num desfiladeiro de pedras quartzo,
entre grutas, estalactites e tomilho,
sem encontrar o tesouro dos algares.

Entrar nas noites-lírio sem procurar
o mapa iluminado da estrela Sirius.
Percorrer uma a uma pela esfera lunar
as coisas que deixei para trás vazias,
sem sentir a falta real de nenhuma.

Viajar rumo ao horizonte de mim,
sem levar nada... nem sequer a ti,
nesta bagagem de palavras-fráguas
que arrasto a custo, com náuseas,
empurrando o vento e as certezas
de que esta é uma viagem circular,
até ao centro incandescente de mim.

domingo, 12 de outubro de 2008

Abismo


Abismo

Rio
correndo
serra abaixo,
saltando
afogando
esgueirando-se
entre mim e ti.
Somos
projectados
em cascata
que caí continuamente
sem vermos o fim.
No precipício
há uma gruta sem luz,
onde não entramos
onde recusamos
onde evitamos:
ser eu;
seres tu.


Na escuridão há fontes,
mas as mãos não estão em concha,
não nos matam a sede,
não nos sossegam as dúvidas.
Apenas relembram
o frio da serra
e a lua que lambemos
à falta de pão
à falta de vinho
à falta da nossa carne,
exposta nua à luz,
perdidos
em caminhos tortuosos
da mente em cascata
e em rios de renúncia .

Prontos?
Sim !
E saltamos para o abismo...

domingo, 5 de outubro de 2008

Filho das águas




A chuva humilhante escorre,
lembrando-nos a felicidade,
de corrermos à solta, fugindo
por entre os pingos de cristal.

No chão molhado e espelhado
pintamos aguarelas de cor e luz,
nas sombras cinzentas da noite
perdidas nas insólitas calçadas.

Aqui aprendemos a humildade
dos pequenos gestos naturais:
quando para não escorregares
me dás a tua pequena mão fria
e eu compreendo, filho das águas,
qual é realmente o meu lugar,

Nesse momento a metafísica
torna-se um jogo inocente de crianças.