sexta-feira, 15 de abril de 2011

“Menina dos olhos de água”


Hoje o meu olhar é um leão de papel,
E o meu corpo um barco num ombro
forjado em imagens vãs de mentira.
Não sei se posso aportar nestas vagas
e desfazer os olhos neste mar morto
que me afoga sem máscaras, farsas,
fortalezas, liberta desta tormenta felina.

Era urgente abrir com as unhas a noite
e reentrar na carne amniótica da lua,
desparir-me nos seus ecos maternais...
Mas só no fundo da cal mortal dos algares
encontro a imagem amputada do que fui,
embrulhada numa armadura de malha-de-lã,

Chamam-me gruta segura, sem chuvas precipitadas,
Mas não sabem que só fui fortaleza quando era ave trémula
e ouvia aquele canto sussurrado na lua e nos canaviais:
“ Minha menina… menina dos olhos de água..
eu só por mim quero-te tanto, que não vai haver
menina para sobrar” - fica para mim e deixa-me encantar-te.

Então os peixes eram borboletas-no-estômago,
as águas e as algas escorriam mais verdes e puras
nos meus olhos, até serem um mar de choro e risos
e em ti rebentava uma tempestade com perfume de rosmaninho e limão.

De tudo só ficou a música,
hoje sou pedra de cal corrosiva, esfinge negra, alfazema roxa
caindo por mim abaixo, até ao fundo de um algar, de uma gruta
onde possa desnascer…voltar a ser ribeira de águas limpas…
Mas será em vão:
a menina morreu …
os olhos já não são mar…
e aqui não há rosmaninho, só o ácido do limão…

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Nada mudou em mim


Os rios podem rebentar
mais fortes e altos
no mar branco e agitado
dos meus dentes e saliva.
As palavras podem ter perdido
cruzes, negros e cardos,
mas continuam as vozes
que silenciosas me prendem,
alheias aos risos do mar
e às palavras das rosas.

Nada se perdeu em mim,
nem sequer as luas rolando nos canaviais,
ou as conchas fechadas, silenciadas.
Caminho
entre as trevas e a luz
rumo à unidade.

E as rosas vão florindo
à sombra dos cardos e das cruzes,
mas ninguém vê que são negras
e não lhes sei dar cor.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Silêncio




Silêncio
nos círculos do chão-charco,
onde petrifico.

Tronco apodrecido
sem alma de gente dentro.
Tronco mortiço
de árvore germinal.
Tronco náufrago
do barco que fui.

Nas mãos torço o silêncio
e escorre por mim abaixo
esta brisa fria e calada.

Sou silêncio, sem salvação.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009


Cafe terrace on the place - Vincent van Gogh

Na chávena de café adoço
a ilusão dos dias imperfeitos,
girando em remoinho a colher
pela memória dos pomares
de limões ácidos e maduros.

Com a brisa nocturna sopram
acordes vagamente salgados
e na plenitude das máscaras
estendo a alma e apresento-me:
- aqui, eu não sou Eu
e tu não és Tu, nem Ele.

O diálogo pinga sobre a mesa
esculpido em monólogo teatral
de palavras vidradas, desencantadas
no fundo dos bolsos poeirentos.

E no silêncio dos nossos ossos
não somos mais que carcaças
de velhos veleiros sem idade,
num cais nocturno e anónimo,
esperando sem vontade nem fé
uma corrente de sul, ou um milagre:
Que te afaste de ti e ele de mim,
Que me naufrague nas outras de mim.

domingo, 11 de outubro de 2009

Amputação





Amputação

Sentada nos desperdícios de dias-náusea
desvio o olhar do lado esquerdo, o do coração,
onde estás entranhado no calcário silencioso,
trincando feno jovem e rodando as pedras
que atirámos pelos desfiladeiros repetidos,
ouvindo a negação da sua ancestral resposta.

De novo apunhá-lo-te nas costas do vento,
mas tu insistes em chicotear-me a alma
com verdades e amarras de ferro, só
pelo prazer de me estenderes a mesma
esponja calmante de vinagre aquecido,
nesta crucificação perpetuada de tédio.

Sempre que tento a tua amputação de mim
insistes em te multiplicares, deixando-me
assim, insuportavelmente cega e muda.
Entranhaste-te no silêncio nu de mim
e já não sei partir das enseadas de ti,
sem me deixar a mim náufraga também…

Tiraste-me os dias harmoniosos da escrita,
não posso escrever mais sobre mim,
sem escrever sobre ti e sobre o terror
da amputação das asas que vou fazer
para sobreviver…sobreviver…e não viver…

sábado, 20 de junho de 2009

Funâmbulo





Trepo pelas linhas de aço fino
de um papel espinhoso e estéril,
ocultando-te no raio de uma vertigem...
Busco o espanto baptismal da cria ao nascer,
cheirando palavras tenras, orvalhadas
impronunciáveis ao vento e à chuva.

Avanço na voragem dos dedos trémulos,
aportando no cimo de mim,
espreito nas arestas o que nunca senti,
mas escorrego....tropeço em ti
e caio em mim, num poema-novelo confuso.

Neste ápice sou funâmbulo do papel farpado
ensaiando acrobacias nas palavras,
procurando o aplauso do público ausente
e o arrepio gelado na tua nuca quando caio
desta teia urdida a ferro e fogo,
verdadeira corda-bamba de letras aladas
que nos algema ao circo da vida,
vivida sempre pela metade, sempre vacilante...

Na última bancada lá estás tu,
sorriso irónico e aplauso metálico, oiço-te gritar:
« Levanta-te, pega nas palavras e voa de novo,
desta vez sem olhares para mim! »

domingo, 7 de junho de 2009

Gaveta



Gaveta

A tua imagem espreita perdida
num canto oblíquo da gaveta,
onde amontoo os papéis do presente e
as almas do passado, escondidas
entre o lixo, o pó, e a ilusão doce
do cheiro dos limões maduros.

Diz-me,(pois já não me sei lembrar...)
Houve um dia em que te dei a mão
e toda a multidão se esfumou?
Já não sei se essa foi a verdade
ou se a sonhei na dormência dos dias.

Sabes...já não sei se tivemos garras
e se cantámos abafados pelos gritos
dos mochos, nas florestas de Elfos,
chapinhando as asas roubadas
nas grutas germinais de águas gélidas.
Sabes... já não sei se existes de verdade,
ou se te moldei com o pó das estradas,
que fui percorrendo em círculos calados,
amassando as dúvidas e os vazios
com a argila das tuas palavras aladas.

Sim, eu sei ...criei-te com a forma do que és
e a alma que para ti fiz, costurando os
retalhos de mim e de ti que se perderam
ao olharmos os outros e as folhas caídas.

Sim... nós sabemos, quando tudo abandonei
ficaste tu e um búzio,
amarrotados num poema inacabado no fundo
desta gaveta poeirenta e desarrumada.