domingo, 12 de outubro de 2008

Abismo


Abismo

Rio
correndo
serra abaixo,
saltando
afogando
esgueirando-se
entre mim e ti.
Somos
projectados
em cascata
que caí continuamente
sem vermos o fim.
No precipício
há uma gruta sem luz,
onde não entramos
onde recusamos
onde evitamos:
ser eu;
seres tu.


Na escuridão há fontes,
mas as mãos não estão em concha,
não nos matam a sede,
não nos sossegam as dúvidas.
Apenas relembram
o frio da serra
e a lua que lambemos
à falta de pão
à falta de vinho
à falta da nossa carne,
exposta nua à luz,
perdidos
em caminhos tortuosos
da mente em cascata
e em rios de renúncia .

Prontos?
Sim !
E saltamos para o abismo...

domingo, 5 de outubro de 2008

Filho das águas




A chuva humilhante escorre,
lembrando-nos a felicidade,
de corrermos à solta, fugindo
por entre os pingos de cristal.

No chão molhado e espelhado
pintamos aguarelas de cor e luz,
nas sombras cinzentas da noite
perdidas nas insólitas calçadas.

Aqui aprendemos a humildade
dos pequenos gestos naturais:
quando para não escorregares
me dás a tua pequena mão fria
e eu compreendo, filho das águas,
qual é realmente o meu lugar,

Nesse momento a metafísica
torna-se um jogo inocente de crianças.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Jogo



O rasto de uma linha perdidamente obtusa
traça a escuridão pálida dos olhares castrados,
umas asas diabolicamente bravas e sombrias
pairam na escuridão nervosa de uns dedos que
procuram a entrega explosiva da carne madura.

Não eram estas palavras de zinco que te queria dar,
mas todas aquelas de significado insuspeito e oculto,
despojos da loucura das rugas anunciadas no fumo,
restos de tudo o que julguei ser, além-quotidiano.

Finjo o que nunca fui, só para volteares na luz
inebriado, aprisionando quem ao toque não sou.
Invento-me só para poder raiar na distância
da noite, numa conversa branca que esconde o
lado oculto das pedras negras escondidas do sol.

As palavras sorriem em diagonal, mascaradas
mas sei que consegues ler o que te escondo,
embora finjas não ver, não sentir, não querer...

Este é afinal um jogo corrosivo, disputado e negado a dois.

domingo, 7 de setembro de 2008

Voos de cal





Numa distância aquém mar de trago doce
durante as noites em que a frustração ácida
quase enlouqueceu os sentidos dormentes,
as mãos ganharam uma metamorfose alada
e levaram-nos marginais à casa de nós mesmos.

No nervoso dos dedos catámos palavras
ansiosamente secretas de um amor calcário,
por entre a via láctea nocturna e marítima
regressámos ao tempo luminoso e disperso
onde nos encontrámos e nos perdemos órfãos
siameses no arame farpado dos dias ociosos,
famintos daquilo que a carne nunca nos deu e
renegando às garras dos sentidos a tal fusão.

Desses voos clandestinos ficou a certeza nua
de que atingimos a cal viva e pura, aquela que
corrói a carne podre, morta, acessória do corpo
e liberta a alma de todas as máscaras fingidas,
deixando-nos assim em ferida-aresta, sangrando,
abertos um ao outro, com a certeza clara de que
estes são os voos secretos, rasando a perfeição.

domingo, 31 de agosto de 2008


E a noite abre-me os olhos

Na serpente enrolada dos dias frios
as estátuas ilusórias rodopiam na poeira,
confundidas no sol, brilham magnéticas,
para além dos vagos montes, imprecisas.
Avançam em aves alucinadas e mudas
calando frustrações do corpo abandonado,
fazendo com que tudo no ar seja incerto.

O sol fere a alma, cegando a frio
a consciência e o lume dos sentidos,
só a brisa da noite me abre os olhos,
só nela sei que quadro oculto é esse
que a mente vai enrolando no linho dos dias,
protegendo a sua identidade e o meu lugar.

É noite e voo rumo a mim, de olhos bem abertos...

Filhos de Dédalo

Dédalo peço-te o que nunca ousei:
- constrói-me umas asas silvestres
com penas de tordos e estorninhos,
enlaçadas com ervas mediterrânicas,
iguais as que construíste para Ícaro.
(O teu filho preferido, mas o mais
irresponsável e ingrato de todos.)

És meu pai e não me amas, como a ele...
Sou a tua filha-cardo da serra árida,
fruto do sémen aquoso de velho criador
com a sua estátua, num sopro de mulher,
abandonada por ti, em pedra de calçada.

Sou refém do rei Minos e de uma vontade
que me suga a alma em círculos orvalhados.
Incapaz de roubar o fio condutor de Ariadne
rumo ao perfil molhado do belo Teseu,
o único capaz de matar este minotauro,
que me galga nas veias de cal e me prende
no bolor, negando-me o voo num céu de luz
livre deste labirinto de Creta, dentro de mim.

Pai, não te posso perdoar, nunca!
Amaste só um dos teus filhos, e logo
aquele que queria tocar o sol, enquanto eu,
livre de mim, sem labirintos, queria amar Teseu...

quarta-feira, 27 de agosto de 2008


Cleptomania das mãos

Na nebulosa esquina da distância, escravos
de uma idade menor, os silêncios velados,
os olhares de noite escura cheiram-nos
a uma tristeza muda, de terra húmida,
sem o abraço de qualquer salvação possível.

Quando esbarramos na encruzilhada do olhar
apetece-me roubar-te um sorriso luz,
ou ir buscar às escondidas um raio de sol,
para te ensinar que para além da escuridão
brilham galáxias de fogo e campos de paz lunar.
E aqui, nas florestas de lobos e anões-bruxos,
sem farsas de gesso, podes ser quem quiseres
até mesmo quem julgas ser, na verdade de ti.

Na inércia dos papéis diários e convencionais,
as mãos nunca controlam a sua cleptomania
e mesmo à-beira-dos-outros, roubo palavras,
segredos brancos de soslaio, só para te levar,
ao trilho da floresta de cal, onde podes correr
com os lobos nocturnos nas sombras da lua,
afastado das barreiras de aço farpado,
especialmente daquelas com que cortas os pulsos quotidianos.

Toma, roubei para ti mais um olhar em forma de estrela,
tira-o das minhas mãos criminosas e foge com ele,
já que eu tenho de ficar aqui, nocturnamente sem ti...