

Partir de mim com nada nas mãos,
contornar as ruínas perdidas na urze
do monumento sagrado que um dia foste
e olhá-las sem curiosidade, sem as tocar,
pelo raio fulminante de um instante-luz.
Passar entre os sulcos e rugas de pó,
avançar guiada pelo som das águas,
num desfiladeiro de pedras quartzo,
entre grutas, estalactites e tomilho,
sem encontrar o tesouro dos algares.
Entrar nas noites-lírio sem procurar
o mapa iluminado da estrela Sirius.
Percorrer uma a uma pela esfera lunar
as coisas que deixei para trás vazias,
sem sentir a falta real de nenhuma.
Viajar rumo ao horizonte de mim,
sem levar nada... nem sequer a ti,
nesta bagagem de palavras-fráguas
que arrasto a custo, com náuseas,
empurrando o vento e as certezas
de que esta é uma viagem circular,
até ao centro incandescente de mim.